08 de julho de 2018 às 02:00

Um dia de cada vez

O Ministério da Saúde precisaria advertir: cardíacos, favor saírem da sala, pois um negócio que leva o nome de "mata-mata" não é para qualquer um. Se roesse unhas, as minhas estariam no toco. Mas agora resta fazer o luto.

O Ministério da Saúde precisaria advertir: cardíacos, favor saírem da sala, pois um negócio que leva o nome de "mata-mata" não é para qualquer um. Se roesse unhas, as minhas estariam no toco. Mas agora resta fazer o luto.

O luto é um processo que vai da incredulidade à revolta, da apatia ao desespero. Ele faz seu trabalho fundamental para que vivamos nossas vidas. Sem o luto ainda estaríamos insones pela chegada do irmãozinho intruso ou pela despedida da professora primária. Pode ter parecido um horror à época, mas passou. ?

Entre o lamento pelo que não foi e a ansiedade pelo que será, tem essa brecha a que chamamos presente. E nosso presente é de lamentar, o que sempre envolve um tanto de remoer, rever cenas, ruminar o acontecimento. A busca de culpados e a necessidade de descarregar a frustração em algo ou alguém faz parte, mais não leva longe. Há responsabilidades, mas cabem a todos. O luto é totalmente diferente da depressão. A depressão é a impossibilidade de elaborar a perda e de fazer novos planos, de sonhar.

O Brasil, por suas glórias históricas no futebol, não nos permite que nos contentemos em sonhar pouco, pois cremos que "a taça do mundo é nossa".

Bem diferente da experiência do Panamá no jogo com a Inglaterra. O Panamá levou 6 gols e fez 1, o qual comemorou como se tivesse ganho a final da Copa. Deu gosto ver que vencedor e vencido celebravam igualmente o resultado, já que o time caribenho comemorava o fato de fazer um gol em uma Copa do Mundo pela primeira vez. Não é o nosso caso, soframos o que temos que sofrer. Voltemos a desejar ainda mais.

O futebol tem a característica de ser o esporte mais parecido com a vida, com seus perrengues, imprevistos e injustiças. É um jogo no qual o técnico tem que explicar por que seu time perdeu, mesmo quando o time adversário é visivelmente superior.

Ou, no sentido inverso, explicar ter sido o melhor time em campo para justificar ter ganho a partida. Seria essa uma das razões para ter se tornado a paixão mundial que é? Talvez se trate da experiência de usufruir de um minuto de cada vez, arriscando tudo, sem garantias. Seguimos às escuras, como sempre seguimos na vida. De fato, é o que temos para hoje, curtindo fossas e glórias. Agora, tudo vai depender de fazermos o luto do que foi, em tempo de voltar a sonhar, sem temer.

Fonte: FOLHA

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